Única forma de acesso aos cursos de graduação das principais
universidades federais, o Exame Nacional de Ensino médio (Enem)
tornou-se um instrumento de preocupação dos colégios. No Rio, com a
adesão total à prova por UFRJ, UFF, Unirio e Rural nos últimos três
anos, as Escolas têm procurado adequar os currículos dos Ensinos médio e
fundamental para que o desempenho dos Alunos seja tão bom ou melhor que
nos vestibulares tradicionais.
A divulgação do ranking do Enem 2011, na última semana, provocou
alvoroço entre as instituições de Ensino, mas especialistas alertam que
essa classificação está longe de ser o ideal e, tampouco, o único
critério a ser levado em conta na hora de escolher onde matricular o
filho.
O tema provoca tantas dúvidas e controvérsias que Chico Soares, um dos
principais pesquisadores do setor no país, elaborou um guia com as
perguntas mais frequentes sobre o assunto. Integrante de conselhos
consultivos do Inep e da UFMG, ele afirma que o ranking é apenas uma
dimensão a ser levada em conta, mas com muitas imprecisões. Entre elas,
cita o fato de ser baseado na média e esconder que, mesmo nas Escolas
que estão nas posições mais altas, há Alunos que não se saíram bem. Por
isso, ele diz que a colocação Escolar no ranking pode servir apenas como
primeiro filtro:
- O ranking da Escola é apresentado sem uma faixa de erro. O
aprendizado dos Alunos depende muito do que eles trazem de casa, de seu
capital cultural. Assim, a posição da Escola reflete muito mais o
potencial dos Alunos que conseguiu matricular do que a excelência de seu
projeto pedagógico - explica.
O pesquisador acrescenta:
- São tantas as limitações, que usar apenas a posição da Escola como
critério de decisão é pouco racional. Escolher a Escola é principalmente
escolher com quem os filhos irão conviver. Essa decisão deve
considerar, entre as opções, aquele projeto pedagógico que se alinha com
os valores e expectativas da família. A Educação é muito mais ampla que
um ranking: é para a vida.
Unidades só para bons Alunos
Chico Soares chama atenção ainda para o fato de redes de Ensino criarem
unidades específicas só para bons Alunos visando elevar as médias do
Enem. Para ele, essas distorções são graves. Escola com a melhor média
nas notas objetivas no Enem 2011, o Objetivo Colégio Integrado, em São
Paulo, foi duramente criticado por criar uma filial apenas para os
melhores estudantes e com Professores selecionados. Apesar de o diretor
João Carlos Di Genio não ver problemas nisso, Educadores são contra.
Professor da FAAP e membro da diretoria do Sindicato de Professores de
São Paulo, Arthur Costa Neto condena essa prática bem como o ranking:
- Nunca fui a favor de uma Escola vestibulesca e não dou muita
importância a avaliações do tipo. O importante é que ela transmita
valores como cidadania e arte, com os quais essas Escolas vestibulescas
não estão preocupadas.
Para ilustrar, Costa Neto, que é vice-presidente da União Nacional dos
Conselhos Municipais de Educação, cita o exemplo do próprio filho:
- Ele é muito inteligente, mas não se adaptava à rotina Escolar. Na
faculdade, não estudava nada, mas prestava atenção às aulas e tirava as
notas mais altas. O mais importante é o pai respeitar a personalidade do
filho. Qual o melhor critério para escolher a Escola para ele:
prepará-lo para a vida ou para o vestibular? Difícil é encontrar uma que
concilie os dois. Se for preciso, matriculo meu filho em um cursinho
para cumprir essa segunda tarefa.
No Rio, dois fatores prejudicaram as Escolas no ranking: a exclusão da
nota da redação no cálculo da média, que levou em conta apenas as provas
objetivas; e a inclusão na lista apenas dos colégios que tiveram ao
menos 50% dos Alunos concluintes inscritos no Enem. Este segundo
critério pode ser o motivo de as duas unidades do Santo Agostinho não
terem aparecido na classificação. Porém, o mais provável é que tenha
havido um erro do Inep, já que as filiais do Leblon e da Barra ficaram
entre as 20 melhores do Enem 2010, e a maioria dos Alunos fez a prova em
2011.
Erro similar havia acontecido com o Andrews e a Escola Sesc de Ensino
médio, que notificaram o Inep a tempo de correção e inclusão na lista.
No entanto, vários colégios cariocas, como pH, AZ, Mopi e Centro de
Educação e Cultura, reclamam que não receberam os resultados antes de
eles serem divulgados. Alguns divergem da taxa de participação de Alunos
indicada pelo Inep, e outros sequer figuram na lista. O Ministério da
Educação garante que os dados estão corretos e que todas as Escolas
receberam os resultados. Segundo o MEC, a lista não será alterada.
Dúvidas quanto à metodologia
Consultora e doutora em Educação, Regina de Assis acredita que todo esse cenário depõe contra a confiabilidade do ranking:
- Estamos vendo um escamoteamento de dados que não dão o retrato real
do que está acontecendo. Isso é grave. Não dá para confiar. Como o Enem
vai se tornar um instrumento de redimensionamento das políticas públicas
para melhorar o desempenho dos Alunos se a amostra e a metodologia
deixam a desejar? As famílias não devem levar em conta só o ranking do
Enem, que trabalha com provas padronizadas. É preciso visitar as Escolas
e procurar as propostas pedagógicas e os valores com que mais se
identificam.
Reynaldo Fernandes, ex-presidente do Inep, defende a legitimidade do
ranking. Foi em sua gestão que as notas do Enem por Escola começaram a
ser divulgadas. Ele diz que a lista não deve ser o único critério na
escolha de um colégio, mas é que ela é um dos melhores indicadores de
comparação:
- A avaliação de uma Escola é um critério de julgamento de valor. As
provas são indicadores que ajudam a formar juízo crítico da Escola.
Quanto mais informações houver, melhor. O ranking do Enem é um dos
poucos comparáveis entre Escolas e um dos melhores. As comparações são
inevitáveis, e as pessoas as usam como referência. Quem é de classe
média e alta do Rio vai olhar as Escolas tradicionais. Assim como
pessoas que não têm boas condições financeiras não vão procurar o São
Bento para matricular o filho.
O Enem não é uma avaliação de escolas
É natural que pais, estudantes e sociedade em geral queiram saber quais
são as Escolas em que muitos Alunos estão conseguindo boas pontuações
no Enem. Afinal, o exame ganhou grande relevância ao assumir o papel de
processo seletivo para universidades federais e ao se tornar um meio
para a obtenção de bolsas de estudo em universidades particulares. No
entanto, alguns números podem não ilustrar de forma fiel a qualidade da
Escola ou o quanto ela vai influenciar no ingresso do Aluno no Ensino
superior.
Avaliar Escolas do Ensino médio é um grande desafio. Primeiro porque,
além do background familiar dos Alunos, conta também o que eles
aprenderam nas Escolas em que estudaram anteriormente. Além disso, o
formato do Enem não é próprio para avaliar Escolas e sistemas por
diversas razões. Por exemplo: o exame não é obrigatório, o que faz com
que o percentual de Alunos que faz a prova seja diferente em cada
localidade; e também a motivação para fazer a prova varia dependendo de
onde estudam.
Então, como ler os números? Primeiro, é importante procurar informações
sobre o perfil dos estudantes atendidos. Se a Escola seleciona Alunos,
isso pode estar auxiliando no resultado. Se ela recebe Alunos com
resultados ruins no Ensino fundamental, isso pode ter influenciado
negativamente no resultado divulgado. Procurar entender o motivo pelo
qual os Alunos de determinada Escola fizeram o exame também é
importante.
O essencial é ter em mente que ranquear as Escolas com base em suas
médias traz o risco de análises erradas. Os resultados divulgados talvez
possam auxiliar em um filtro inicial de Escolas mas, para uma avaliação
mais qualificada, é necessária a coleta de muitas outras informações,
tanto quantitativas como qualitativas. E, infelizmente, temos poucas
informações disponíveis, de modo acessível, para auxiliar na avaliação
de Escolas do Ensino médio, algo em que o próprio Inep e os
pesquisadores precisam investir.
Em Teresina, uma escola sempre entre as melhores
Com mil alunos no ensino médio, de um total de 3.200 somando-se os dos
ensinos fundamental e infantil, o Instituto Dom Barreto, em Teresina
(Piauí), segundo o resultado do Enem, é o sexto melhor do país. A carga
horária é de oito horas/aula diárias, mas está aumentando para 12 horas
para alunos que querem cursar o ITA (Instituto Tecnológico de
Aeronáutica) e o IME (Instituto Militar de Engenharia) ou universidades
americanas como Columbia e Yale.
Quinze alunos foram selecionados para universidades de elite
americanas; 15 foram aprovados, em 2011, para cursar engenharias de
ponta na Universidade de São Carlos; e alunos que preferem Direito e
áreas Humanas e mecatrônica têm se matriculado na UnB. Além disso,
muitos ex-alunos estão estudando em Holanda, França e Alemanha.
A diretora-geral do Dom Barreto, Maria Stela Rangel, conta que os alunos do ensino médio cursaram ali o ensino infantil:
— Além das oito horas de aulas diárias, um dia na semana eles fazem as
provas pela manhã. São mais quatro horas. Os meninos têm uma carga
horária bem puxada.
Dos mais de 300 professores quase todos têm mestrado e 20 têm doutorado ou estão defendendo teses.
Além das disciplinas tradicionais, o Dom Barreto oferece aulas de
xadrez, inglês, espanhol e latim, que os ajuda em disciplinas como
biologia e química por ensinar a origem das palavras. O colégio usa
parte de seu rendimento para manter duas escolas para alunos carentes em
Teresina.
— Oferecemos aos alunos o que eles precisam como cidadãos. Ensinamos as
disciplinas de forma tradicional e temos como prioridade trabalhar o
social — conclui Maria Stela.