O prazer de descobrir um novo poeta
No caso uma poetisa. De quase noventa anos. Até então inédita em livro no Brasil. Wislawa Szymborska, Prêmio Nobel em 1996, é o nome dessa felicidade. O volume de poemas recém-lançados pela Cia das Letras (R$39,50), num ótimo trabalho de tradução, seleção e prefácio da professora Regina Przybycien, é um presente para quem gosta de poesia. Desses que há muito não surgem por aqui.O prazer de descobrir um novo poeta II
O que mais surpreende na obra de Szymborska é o tom coloquial de seus versos. Em alguns momentos, ela mais se parece uma velha amiga, repleta de indagações, que num primeiro momento soam prosaicas, mas que guardam um profundo questionamento do nosso tempo. Como, por exemplo, o arremate de “Escrevendo um currículo”: “O currículo tem que ser curto/ mesmo que a vida seja longa.”O prazer de descobrir um novo poeta III
Szymborska consegue assim um efeito cada vez mais raro, e que aparentemente deixou de ser perseguido pelos poetas contemporâneos: a comunicação. Romper a redoma que relegou à poesia a uma seita de iniciados, que parecem não ter o mínimo interesse em receber novos sócios em suas reuniões. “Uns dois em mil”, como escreve a poeta em “Alguns gostam de poesia”.O prazer de descobrir um novo poeta IV
Ao mesmo tempo, Szymborska passou toda a sua longa vida na Polônia, a maior parte em Cracóvia, atravessando o longo século XX num dos países que mais sentiram os efeitos de toda a perversidade que marcou os conflitos europeus no período. Como diz Nelson Archer na ilustrativa orelha do volume: “foi em polonês que se escreveu a melhor poesia dos últimos cinqüenta ou sessenta anos, e, pelas mãos de Szymborska, a geração que testemunhou a Segunda Guerra e o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada”.O prazer de descobrir um novo poeta V
Mas melhor do que falar do poeta é ler a sua obra. O trecho final de “A curta vida dos nossos antepassados” é melhor do que o melhor dos meus argumentos: “O bem e o mal –/dele sabiam pouco, porém tudo:/quando o mal triunfa, o bem se esconde;/quando o bem aparece, o mal fica de tocaia./Nem um nem outro se pode vencer/nem colocar a uma distância sem volta./Por isso se há alegria, é com um misto de aflição,/se há desespero, nunca é sem um fio de esperança./A vida, mesmo se longa, sempre será curta./Curta demais para se acrescentar algo.”
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